Basta uma busca rápida nas redes sociais para encontrar listas de alimentos “proibidos” para quem tem lipedema. Glúten, lactose, açúcar, tomate, berinjela, café e até frutas aparecem como vilões em protocolos que prometem reduzir a inflamação e controlar a doença.
Mas, a ciência ainda não sustenta essas restrições como tratamento para o lipedema.
“Embora a alimentação tenha papel importante no controle do peso e dos sintomas, a recomendação atual das principais diretrizes é muito mais simples do que as dietas da moda fazem parecer. Tem mais relação com o contexto alimentar do que um alimento em específico”, explica o Dr. Rafael Erthal, cirurgião plástico referência no tratamento de lipedema e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).
O médico explica que o paciente com lipedema frequentemente também apresenta excesso de peso ou obesidade.
“Sabemos que a redução do peso corporal contribui para melhorar sintomas, mobilidade e qualidade de vida. Por isso, a estratégia nutricional mais importante, nesses casos, continua sendo uma dieta hipocalórica equilibrada, capaz de promover emagrecimento de forma sustentável”, explica o cirurgião plástico.
Nos últimos anos, popularizou-se a ideia de que eliminar glúten e lactose reduziria um suposto estado inflamatório associado ao lipedema. No entanto, essa recomendação não encontra respaldo consistente na literatura científica.
“As diretrizes internacionais destacam que não há evidências robustas de que a exclusão desses alimentos beneficie pacientes que não apresentem doença celíaca, sensibilidade ao glúten ou intolerância à lactose diagnosticadas. Retirar grupos alimentares inteiros sem necessidade torna a alimentação mais difícil, reduz a variedade da dieta e aumenta a chance de abandono do tratamento. Muitas pacientes passam a acreditar que um pedaço de pão ou um copo de leite são responsáveis pela doença, quando o foco deveria estar na construção de hábitos saudáveis que possam ser mantidos por toda a vida”, afirma o Dr. Rafael.
Na prática, isso significa que pão, massas, leite e derivados podem fazer parte da alimentação desde que estejam inseridos em um plano nutricional adequado às necessidades energéticas e metabólicas da paciente.
“Embora ainda não exista uma dieta específica comprovadamente eficaz para o lipedema, há consenso sobre alguns princípios alimentares que favorecem o emagrecimento e a saúde metabólica, como: manter déficit calórico para perda de peso; consumir proteínas em quantidade adequada para preservar massa muscular; aumentar a ingestão de verduras, legumes, frutas e outras fontes de fibras; priorizar alimentos minimamente processados; limitar produtos ultraprocessados, ricos em açúcar, gorduras e sódio; associar a alimentação à prática regular de atividade física”, diz o médico.
“Quando a paciente consegue emagrecer, há melhora importante do condicionamento físico, da mobilidade e da qualidade de vida. Isso não significa que o lipedema desaparece, porque a doença continua presente, mas controlar o peso reduz a sobrecarga sobre o organismo e facilita todo o tratamento”, explica.
O papel da cirurgia no tratamento do lipema
Apesar da importância da alimentação, ela não elimina o tecido adiposo característico do lipedema. “O tratamento conservador, que inclui perda de peso, atividade física, uso de meias compressivas e drenagem linfática quando indicada, ajuda no controle dos sintomas, mas não remove a gordura patológica.”
A cirurgia redutora de lipedema (lipoaspiração) continua sendo o tratamento mais eficaz para retirar o tecido comprometido pelo lipedema.
“Ela reduz o volume dos membros, melhora a dor, facilita a movimentação e permite que a paciente mantenha um estilo de vida mais ativo. A alimentação saudável continua sendo fundamental, mas como parte de um cuidado global, e não como uma promessa de cura”, destaca o cirurgião plástico.
“O maior risco é transformar o tratamento em uma sequência de proibições sem fundamento científico. Não existe alimento milagroso, assim como não existe um único ingrediente responsável pelo lipedema“, finaliza o médico.
source https://boaforma.abril.com.br/alimentacao/lipedema-cortar-gluten-lactose/
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