sexta-feira, 17 de julho de 2026

Boa Forma Experimenta: Walk Dance

Mais do que ensinar passos de dança, o Walk Dance nasceu para provar que qualquer pessoa pode dançar. Criada pela professora e bailarina Heloisa Gouvêa, a modalidade mistura movimentos inspirados em diferentes ritmos, como samba, rock, reggae e jazz, mas deixa de lado a técnica e a performance para priorizar aquilo que, segundo ela, realmente importa: colocar as pessoas em movimento.

A ideia surgiu depois de décadas ensinando estilos mais técnicos. Acostumada a dar aulas de jazz, Heloisa começou a questionar por que a dança precisava ser tão complexa e inacessível para a maioria das pessoas.

“Eu achei que podia desconstruir a dança. Torná-la mais acessível, mais fácil, que não exigisse um corpo tão preparado e que fosse mais manifestação do que arte”, conta.

Essa mudança também teve um motivo pessoal. Após a morte do marido, Heloisa encontrou na dança uma forma de atravessar o luto e decidiu transformar essa experiência em um método que pudesse acolher outras mulheres. “Eu dancei muito. Acho que expurguei minha dor através da dança. Foi nesse momento que resolvi torná-la acessível para outras mulheres”, lembra a criadora da modalidade.

Hoje, o Walk Dance reúne principalmente mulheres acima dos 50 anos que encontram na modalidade não apenas uma forma de se exercitar, mas também um espaço de convivência.

Mulher de meia-idade, cabelos castanhos e sorriso largo, vestindo blusa preta com estampa geométrica e calça de couro preta, posa com as mãos na cintura em ambiente interno com iluminação baixa
Heloisa Gouvêa, criadora do Walk Dance, dedica-se à dança há mais de 40 anos e está prestes a completar 70 anos.Heloisa Gouvêa/Arquivo pessoal
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Muito além do gasto calórico

Apesar dos passos simples, o Walk Dance trabalha diferentes capacidades físicas e cognitivas ao mesmo tempo. Durante a aula, é preciso coordenar braços e pernas, acompanhar o ritmo da música, memorizar sequências e executar os movimentos dos dois lados do corpo. Tudo isso estimula equilíbrio, coordenação motora, consciência corporal e memória.

Para Heloisa, essa é uma das maiores forças da modalidade. “A dança contempla tudo: criatividade, equilíbrio, coordenação, percepção e música. Isso te dá uma longevidade melhor”, afirma.

Outro diferencial é o método de ensino. Enquanto muitas aulas de dança apresentam longas coreografias logo no início, o Walk Dance aposta na repetição. Os movimentos são ensinados aos poucos, repetidos diversas vezes e executados dos dois lados do corpo antes que novos passos sejam acrescentados.

“Só a repetição traz a liberdade do movimento. O corpo entende pela persistência e aceita aquele novo caminho”, explica Heloisa. Essa repetição também ajuda a desenvolver orientação espacial e domínio motor, aspectos importantes principalmente para pessoas mais velhas.

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“Eu sempre faço dos dois lados porque acho muito importante essa musculação do cérebro. É domínio motor, equilíbrio. Quando a gente envelhece, precisa manter esse estado de alerta.”, completa a professora.

“É o recreio delas”

Quando participei da aula, uma das primeiras coisas que me chamou atenção foi o clima da turma. A maioria das alunas já se conhecia. Antes da música começar, elas conversavam, riam, tomavam café e colocavam a conversa em dia. Era fácil perceber que muitas estavam ali tanto pela dança quanto pela companhia umas das outras.

Helo resume esse momento de um jeito que faz todo sentido: “É o recreio delas”. Segundo ela, essa convivência é uma das razões pelas quais tantas mulheres permanecem na modalidade. “Elas fazem o social, tomam café, conversam, se afastam um pouco do celular. É um momento delas”.

Como foi a aula na prática

Cinco mulheres de diferentes idades, sorrindo e dançando em uma aula de ginástica, com braços erguidos e pernas flexionadas, em um estúdio iluminado com janelas grandes
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Os primeiros passos confirmaram rapidamente a proposta do método.

As sequências eram construídas aos poucos e repetidas diversas vezes. Primeiro de um lado, depois do outro. Em seguida, tudo voltava desde o começo antes que um novo movimento fosse acrescentado.

Como já tenho experiência com dança, consegui acompanhar a coreografia com facilidade. Mas o mais interessante foi perceber que as outras alunas também aprendiam rapidamente, mesmo sem experiência anterior.

Ficava claro que não era por acaso. O método realmente foi pensado para que qualquer pessoa consiga acompanhar a aula sem aquela sensação de estar sempre atrasada em relação à turma.

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Outro detalhe que me chamou atenção foi a linguagem utilizada pela professora. Em vez de nomes técnicos da dança, os movimentos eram explicados de forma simples e intuitiva.

Essa também é uma escolha consciente do método. “Por que eu tenho que falar plié se posso falar ‘dobra’? Por que falar relevé se posso falar ‘sobe’? Eu tento deixar a dança mais acessível para todo mundo.”, ressalta a professora.

Outro ponto que fez diferença foi a escolha das músicas. O repertório reúne sucessos que marcaram diferentes épocas e despertam uma sensação imediata de familiaridade. Era visível como algumas alunas sorriam ao reconhecer as primeiras notas de determinadas canções e cantavam enquanto dançavam.

Mesmo parecendo uma aula leve, o corpo permanece em movimento praticamente o tempo inteiro. No final, eu já sentia calor e percebia que tinha feito uma atividade física, mas sem aquela sensação de exaustão comum em treinos mais intensos.

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E talvez seja justamente esse o maior mérito do Walk Dance. Ele não tenta formar bailarinas nem transformar a dança em um desafio de performance. “Parece que ninguém mais vai levar essas mulheres para dançar. Então eu digo: dança aqui. Aqui ninguém está julgando.”, refelte Heloisa.

Saí da aula entendendo que o Walk Dance entrega algo que poucas modalidades conseguem reunir ao mesmo tempo: movimento, diversão e pertencimento. Mais do que aprender uma coreografia, a sensação era de fazer parte de um espaço onde errar faz parte do processo e dançar é, acima de tudo, uma forma de continuar em movimento.

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source https://boaforma.abril.com.br/movimento/boa-forma-experimenta-walk-dance/

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