Mais do que ensinar passos de dança, o Walk Dance nasceu para provar que qualquer pessoa pode dançar. Criada pela professora e bailarina Heloisa Gouvêa, a modalidade mistura movimentos inspirados em diferentes ritmos, como samba, rock, reggae e jazz, mas deixa de lado a técnica e a performance para priorizar aquilo que, segundo ela, realmente importa: colocar as pessoas em movimento.
A ideia surgiu depois de décadas ensinando estilos mais técnicos. Acostumada a dar aulas de jazz, Heloisa começou a questionar por que a dança precisava ser tão complexa e inacessível para a maioria das pessoas.
“Eu achei que podia desconstruir a dança. Torná-la mais acessível, mais fácil, que não exigisse um corpo tão preparado e que fosse mais manifestação do que arte”, conta.
Essa mudança também teve um motivo pessoal. Após a morte do marido, Heloisa encontrou na dança uma forma de atravessar o luto e decidiu transformar essa experiência em um método que pudesse acolher outras mulheres. “Eu dancei muito. Acho que expurguei minha dor através da dança. Foi nesse momento que resolvi torná-la acessível para outras mulheres”, lembra a criadora da modalidade.
Hoje, o Walk Dance reúne principalmente mulheres acima dos 50 anos que encontram na modalidade não apenas uma forma de se exercitar, mas também um espaço de convivência.

Muito além do gasto calórico
Apesar dos passos simples, o Walk Dance trabalha diferentes capacidades físicas e cognitivas ao mesmo tempo. Durante a aula, é preciso coordenar braços e pernas, acompanhar o ritmo da música, memorizar sequências e executar os movimentos dos dois lados do corpo. Tudo isso estimula equilíbrio, coordenação motora, consciência corporal e memória.
Para Heloisa, essa é uma das maiores forças da modalidade. “A dança contempla tudo: criatividade, equilíbrio, coordenação, percepção e música. Isso te dá uma longevidade melhor”, afirma.
Outro diferencial é o método de ensino. Enquanto muitas aulas de dança apresentam longas coreografias logo no início, o Walk Dance aposta na repetição. Os movimentos são ensinados aos poucos, repetidos diversas vezes e executados dos dois lados do corpo antes que novos passos sejam acrescentados.
“Só a repetição traz a liberdade do movimento. O corpo entende pela persistência e aceita aquele novo caminho”, explica Heloisa. Essa repetição também ajuda a desenvolver orientação espacial e domínio motor, aspectos importantes principalmente para pessoas mais velhas.
“Eu sempre faço dos dois lados porque acho muito importante essa musculação do cérebro. É domínio motor, equilíbrio. Quando a gente envelhece, precisa manter esse estado de alerta.”, completa a professora.
“É o recreio delas”
Quando participei da aula, uma das primeiras coisas que me chamou atenção foi o clima da turma. A maioria das alunas já se conhecia. Antes da música começar, elas conversavam, riam, tomavam café e colocavam a conversa em dia. Era fácil perceber que muitas estavam ali tanto pela dança quanto pela companhia umas das outras.
Helo resume esse momento de um jeito que faz todo sentido: “É o recreio delas”. Segundo ela, essa convivência é uma das razões pelas quais tantas mulheres permanecem na modalidade. “Elas fazem o social, tomam café, conversam, se afastam um pouco do celular. É um momento delas”.
Como foi a aula na prática

Os primeiros passos confirmaram rapidamente a proposta do método.
As sequências eram construídas aos poucos e repetidas diversas vezes. Primeiro de um lado, depois do outro. Em seguida, tudo voltava desde o começo antes que um novo movimento fosse acrescentado.
Como já tenho experiência com dança, consegui acompanhar a coreografia com facilidade. Mas o mais interessante foi perceber que as outras alunas também aprendiam rapidamente, mesmo sem experiência anterior.
Ficava claro que não era por acaso. O método realmente foi pensado para que qualquer pessoa consiga acompanhar a aula sem aquela sensação de estar sempre atrasada em relação à turma.
Outro detalhe que me chamou atenção foi a linguagem utilizada pela professora. Em vez de nomes técnicos da dança, os movimentos eram explicados de forma simples e intuitiva.
Essa também é uma escolha consciente do método. “Por que eu tenho que falar plié se posso falar ‘dobra’? Por que falar relevé se posso falar ‘sobe’? Eu tento deixar a dança mais acessível para todo mundo.”, ressalta a professora.
Outro ponto que fez diferença foi a escolha das músicas. O repertório reúne sucessos que marcaram diferentes épocas e despertam uma sensação imediata de familiaridade. Era visível como algumas alunas sorriam ao reconhecer as primeiras notas de determinadas canções e cantavam enquanto dançavam.
Mesmo parecendo uma aula leve, o corpo permanece em movimento praticamente o tempo inteiro. No final, eu já sentia calor e percebia que tinha feito uma atividade física, mas sem aquela sensação de exaustão comum em treinos mais intensos.
E talvez seja justamente esse o maior mérito do Walk Dance. Ele não tenta formar bailarinas nem transformar a dança em um desafio de performance. “Parece que ninguém mais vai levar essas mulheres para dançar. Então eu digo: dança aqui. Aqui ninguém está julgando.”, refelte Heloisa.
Saí da aula entendendo que o Walk Dance entrega algo que poucas modalidades conseguem reunir ao mesmo tempo: movimento, diversão e pertencimento. Mais do que aprender uma coreografia, a sensação era de fazer parte de um espaço onde errar faz parte do processo e dançar é, acima de tudo, uma forma de continuar em movimento.
source https://boaforma.abril.com.br/movimento/boa-forma-experimenta-walk-dance/
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