sexta-feira, 3 de julho de 2026

Michelle des Bouillons explica o que é preciso para enfrentar uma onda de quase 25 metros

Em dezembro de 2025, durante uma etapa da WSL em Nazaré, Portugal, Michelle des Bouillons viveu um dos momentos mais marcantes da carreira. A brasileira de 35 anos, surfou uma onda que, segundo uma medição preliminar, alcançou 24,99 metros e pode superar o recorde mundial feminino. O resultado oficial ainda será analisado pelo Guinness World Records, mas, para a surfista, a conquista começou muito antes de entrar no mar.

Reconhecida como um dos principais nomes do surfe de ondas gigantes no Brasil, Michelle competia na modalidade tow-in, em que o atleta é rebocado por um jet ski até ondas que seriam impossíveis de alcançar remando. Em Nazaré, praia portuguesa conhecida pelas maiores ondas do planeta, ela entrou na água pensando apenas em fazer uma boa bateria.

“Eu não entrei lá pensando em pegar a maior onda do mundo. Eu entrei focada na competição. O mar estava gigante, mas também estava muito bom, com vento favorável e a parede da onda lisinha. Isso me deu confiança”, conta.

Quando uma série ainda maior se formou, seu parceiro de tow-in, Ian Cosenza, acelerou o jet ski em direção à onda. Naquele instante, Michelle entendeu que enfrentaria um dos maiores desafios da vida. “Eu queria tanto vencer aquela competição que não dei margem para o medo.”

Assista ao momento em que Michelle surfa a onda de 24,99 metros:

MICHELLE_by YUNES KHADER
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O preparo começa muito antes do mar

Muito antes de descer uma onda gigante, Michelle passa horas treinando fora do mar. Para ela, a coragem só aparece quando existe confiança no próprio preparo. “Grande parte de vencer o medo é confiar no meu preparo físico, na minha performance e no meu corpo.”

A rotina de treinos reúne musculação, exercícios funcionais e um trabalho voltado para a biomecânica, adaptado às necessidades do seu corpo e às exigências do surfe de ondas gigantes. “Eu treino muita força. Faço musculação, exercícios funcionais voltados para a minha biomecânica e para o meu esporte. Cada pessoa tem um corpo e funciona de uma forma diferente, então trabalho isso junto com o meu treinador.”

Outro pilar da preparação é a apneia, habilidade essencial para quem enfrenta ondas gigantes. Durante a temporada em Nazaré, Michelle inclui treinos específicos para aumentar a capacidade de permanecer sem respirar, simulando situações em que pode ficar submersa após uma queda. O objetivo é melhorar o controle da respiração e manter a calma mesmo em condições extremas.

Apesar do trabalho realizado na academia, ela acredita que o principal treinamento acontece no próprio oceano. “A maior parte do meu treino é dentro da água. A gente passa muito tempo sendo rebocado pelo jet ski e isso trabalha o corpo inteiro, dos pés aos braços.”

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Além da força e da resistência, esse treinamento também exige equilíbrio, coordenação e estabilidade para controlar a prancha em alta velocidade antes mesmo de iniciar a descida da onda.

Preparar a mente faz parte do treino

Se o corpo precisa estar pronto para suportar a força do oceano, a mente também precisa aprender a lidar com um ambiente extremo.“É impossível falar de ondas gigantes sem falar de medo.”

Segundo Michelle, o trabalho psicológico acontece diariamente, muito antes das competições. “É tudo muito intenso. A força da onda, o barulho, o balanço do mar… Não é um ambiente em que você está confortável. Por isso a gente treina tanto, para se sentir cada vez mais seguro.”

Na descida da onda de quase 25 metros, a concentração tomou conta. “Quando cheguei na base da onda, a sombra dela cobriu a luz do sol. Escutei o estrondo da onda quebrando e senti a espuma batendo na minha perna. Pensei: ‘Eu não posso cair aqui’.”

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Ela conseguiu concluir a manobra e, naquele momento, teve a sensação de que havia vivido algo especial, embora ainda não soubesse a dimensão do feito.

A confiança também vem de quem está ao lado

Além do preparo físico e mental, Michelle acredita que a segurança para enfrentar ondas gigantes depende da equipe. Ela destaca a parceria com Ian Cosenza, responsável por rebocá-la até as ondas, e com outros surfistas experientes, como Lucas Chumbo, que fazem parte de sua rotina.

“Eu confio muito neles. Somos amigos há muitos anos. Eles dão a vida deles por mim e eu dou a minha por eles.” Para a atleta, essa relação faz toda a diferença quando as condições do mar são extremas. “Eu sei que, se eu cair, eles vão estar lá. Isso me dá muita confiança.”

Mulher sorridente em roupa de neoprene preta e azul claro, de pé sobre uma prancha de surf rebocada por um jet ski cinza pilotado por um homem de boné e roupa preta, em mar agitado com montanhas e prédios ao fundo
Michelle des Bouillons ao lado de Ian Cosenza, seu parceiro.Arquivo pessoal/Divulgação
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O possível recorde só veio depois

Apesar de sentir que havia surfado uma onda diferente, Michelle conta que só começou a entender a dimensão da conquista após o fim da competição. “Eu sabia que ela era muito grande, mas em nenhum momento pensei em recorde.”

Foi apenas depois de receber mensagens de outros surfistas e analisar as imagens da bateria que percebeu que poderia ter entrado para a história. “Vários atletas começaram a dizer que aquela podia ser uma onda de recorde. Aí eu comecei a entender o tamanho do que tinha acontecido.”

A medição preliminar apontou 24,99 metros, número que, se confirmado oficialmente, superará o recorde mundial feminino. Enquanto aguarda a análise final, Michelle prefere manter o foco no significado daquele momento. “Quero muito trazer esse título para o Brasil.”

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source https://boaforma.abril.com.br/movimento/michelle-des-bouillons-revela-como-preparou-corpo-e-mente-para-onde-de-25-metros/

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