O lipedema é uma doença crônica e dolorosa do tecido adiposo subcutâneo, que acomete quase exclusivamente mulheres e se caracteriza por acúmulo desproporcional e geralmente simétrico de gordura em membros inferiores (e às vezes braços), poupando mãos e pés.
Por gerar intenso desconforto, muitos produtos surgem no mercado como solução mágica para o problema, como é o caso da “calça de lipedema”, que agem por meio de compressão. Mas elas realmente funcionam?
As calças de lipedema com compressão realmente funcionam?
Segundo o Dr. Rafael Erthal, cirurgião plástico referência no tratamento de lipedema e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), elas podem ser auxiliares no alívio subjetivo momentâneo durante atividades físicas e atividades da vida diária, por exemplo, mas não equivalem à terapia de compressão.
“Devemos ter cautela com as chamadas ‘calças de lipedema’ comerciais, porque muitos produtos vendidos com esse nome são modeladores que não entregam compressão graduada de grau terapêutico, não são feitas sob medida e não têm classe de compressão especificada”, esclarece.
O médico explica que a fisiopatologia do lipedema é complexa e envolve hipertrofia e hiperplasia dos adipócitos (células de gordura), inflamação crônica, disfunção microvascular e tem forte influência hormonal, sendo comum que se manifeste ou piore em fases de mudança hormonal (puberdade, gestação, menopausa).
No caso das calças, o Dr. Rafael explica que essas peças vendidas comercialmente muitas vezes atuam como modeladores, com compressão muito variável porque não existe fiscalização e classificação especificada.
“Essas peças não são comparáveis às meias de compressão clínica. As meias de compressão clínicas têm respaldo científico, reduzem o acúmulo de fluido no tecido intersticial, comprovadamente diminuem a dor e a sensação de peso quando usadas de forma consistente”, comenta o médico.
A principal indicação dessas calças é como suporte durante exercícios físicos, porque a compressão evita que a atividade aumente o extravasamento de líquido.
“Mas essas calças não são indicadas para pacientes no pós operatório, por exemplo, que é um período em que precisamos de compressão graduada específica para cada fase da recuperação”, diz o Dr. Rafael.
O melhor tratamento para o lipedema engloba uma abordagem multimodal, incluindo controle de peso, orientação nutricional, exercício de baixo impacto, terapias de compressão específicas e graduadas, suporte psiocossional e, se necessário, cirurgia.
Quais os riscos do uso inadequado?
O uso inadequado pode agravar o quadro, segundo o médico. “Existe risco real em duas situações diferentes. Quando há indicação de uma compressão graduada como tratamento de lipedema ou pós-operatório, o uso das ‘calças de lipedema’ pode trazer compressão insuficiente e um resultado insatisfatório.”
“Mas o oposto também pode ser verdadeiro, quando se usa um tamanho errado ou compressão excessiva, que podem gerar efeito garrote: dobras que ‘cavam’ a pele e comprometem o sistema circulatório distal, com piora do edema e da dor”, completa o especialista.
Compressão exige indicação e ajuste profissional
Por fim, Erthal reforça que a compressão médica bem indicada ajuda de verdade nos sintomas, mas depende de classe correta, construção adequada e ajuste profissional.
“Não é a mesma coisa que uma ‘calça de lipedema’ do varejo. O melhor tratamento é a combinação de medidas conservadoras contínuas, com a cirurgia em casos selecionados e refratários. O caminho ideal passa por uma avaliação presencial com médico e equipe familiarizados com a doença, que definam a classe de compressão e o plano sob medida para o seu caso”, conclui.
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source https://boaforma.abril.com.br/equilibrio/calca-lipedema-compressao-funciona/
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