Fazer exercício não significa apenas gastar calorias, aumentar a frequência cardíaca ou fortalecer os músculos. Durante a atividade física, o organismo também entra em uma espécie de “conversa química” entre diferentes tecidos.
O músculo em movimento passa a liberar moléculas capazes de enviar sinais para outras células e órgãos, contribuindo para adaptações metabólicas, cardiovasculares e imunológicas.
“Entre essas substâncias estão as miocinas, moléculas produzidas pelas fibras musculares, e as chamadas exercinas, termo mais amplo utilizado para designar moléculas sinalizadoras liberadas por diferentes tecidos em resposta ao exercício. Elas ajudam a explicar, em nível molecular, por que a atividade física regular produz efeitos que não ficam restritos ao músculo que está sendo exercitado”, conta a médica nutróloga Dra. Marcella Garcez, diretora e professora da Associação Brasileira de Nutrologia.
“Durante o exercício, o músculo libera substâncias que atuam localmente (ação autócrina), em células próximas (ação parácrina), e outras que chegam à circulação e podem influenciar tecidos distantes (ação endócrina). É uma das formas pelas quais conseguimos entender os efeitos sistêmicos do exercício”, completa a médica.
A importância desse mecanismo fica ainda mais interessante quando se observa o tecido adiposo.
“A gordura corporal não é apenas um depósito de energia. O tecido adiposo funciona também como um órgão metabolicamente ativo, capaz de produzir e liberar uma série de moléculas chamadas adipocinas, que participam da regulação do metabolismo, do sistema imunológico e de processos inflamatórios.
Em situações como o sobrepeso e a obesidade, principalmente quando existe excesso de gordura visceral, ocorre uma alteração nesse funcionamento.
Exercício físico faz músculo liberar moléculas que controlam sinais inflamatórios produzidos pela gordura
O tecido adiposo pode apresentar maior produção de sinais pró-inflamatórios e contribuir para um estado inflamatório crônico de baixa intensidade associado a alterações metabólicas.
“É nesse cenário que as moléculas liberadas pelo músculo durante o exercício ganham importância. Algumas miocinas participam da comunicação entre o músculo, o tecido adiposo e outros órgãos, modulando respostas metabólicas e imunológicas. Não devemos imaginar que exista uma molécula do músculo que simplesmente ‘desligue’ a inflamação produzida pela gordura. O que existe é uma rede de comunicação entre os tecidos. O exercício modifica essa rede e pode favorecer sinais associados a uma resposta metabólica e imunológica mais equilibrada”, diz a Dra. Marcella Garcez.
Entre os mediadores associados à resposta ao exercício estão a interleucina-10 (IL-10) e o antagonista do receptor da interleucina-1 (IL-1RA), que participam da regulação da resposta inflamatória.
“O exercício também pode estimular a liberação de formas solúveis de receptores relacionados ao TNF, capazes de modular a atividade dessa citocina. Estudos recentes reforçam que diferentes tipos de exercício alteram a concentração de diversas miocinas, embora magnitude e duração dessas respostas dependam do tipo, intensidade e duração da atividade”, comenta a médica.
Outro fenômeno importante ajuda a explicar por que o exercício, apesar de representar um estresse fisiológico para o organismo, pode produzir efeitos protetores quando praticado de maneira adequada.
“Durante a atividade física, especialmente quando a demanda energética aumenta, o metabolismo celular eleva a produção de espécies reativas de oxigênio (ROS). Em excesso, essas moléculas podem contribuir para o estresse oxidativo. Porém, em quantidades controladas, elas também funcionam como sinais que informam às células que é necessário aumentar sua capacidade de adaptação.”
“É um princípio conhecido como hormese: uma dose controlada de um determinado estressor pode desencadear uma resposta adaptativa que torna o organismo mais preparado para lidar com aquele estímulo no futuro. No exercício, isso inclui o aumento da capacidade dos sistemas antioxidantes endógenos”, completa a Dra. Marcella Garcez.
É importante entender que o aumento transitório de espécies reativas de oxigênio durante o exercício não significa necessariamente que estamos fazendo mal ao organismo.
Elas também participam da sinalização que desencadeia adaptações. Com a prática regular, o corpo aprimora seus mecanismos de defesa antioxidante e passa a lidar melhor com esse desafio.
Além da queima de calorias
Por isso, a especialista reforça que o exercício não deve ser entendido como uma simples estratégia para “queimar calorias”.
“Ele provoca uma série de respostas fisiológicas que envolvem metabolismo energético, vasos sanguíneos, músculos, tecido adiposo, sistema imunológico e comunicação entre diferentes órgãos”, diz. É justamente para reunir essa diversidade de respostas que ganhou força o termo ‘exercinas’.
“Diferentemente de ‘miocinas’, que se refere especificamente às moléculas produzidas pelo músculo, as exercinas correspondem a um conceito mais abrangente para moléculas sinalizadoras produzidas em resposta à atividade física. Elas podem incluir citocinas, peptídeos, metabólitos, lipídios, fatores de crescimento e outras moléculas. Isso significa que o benefício do exercício não depende de uma única substância ou de um único órgão. Trata-se de uma comunicação integrada entre diferentes tecidos”, reforça a médica nutróloga.
“O conceito de exercinas é interessante justamente porque mostra que o exercício funciona como um estímulo sistêmico. O músculo conversa com o tecido adiposo, o sistema cardiovascular e outros órgãos por meio de diferentes sinais químicos. É como se cada sessão de exercício provocasse uma pequena reorganização dessa comunicação interna”, afirma a médica.
Sobre a dose mínima para conquistar os benefícios, a médica lembra da indicação da Organização Mundial de Saúde para realização de, pelo menos, 150 minutos de atividade física por semana.
“Pode ser uma caminhada, corrida, mas de preferência intercalada com treino de força, para que existam estímulos diferentes beneficiando o organismo”, finaliza e Dra. Marcella Garcez.
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source https://boaforma.abril.com.br/movimento/musculo-moleculas-sinais-inflamatorios/
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