Desejar engravidar e começar as tentativas pode ser uma experiência cheia de expectativa, mas, quando os meses (ou até os anos) passam, o sonho pode se transformar em uma jornada emocionalmente exaustiva.
A cada ciclo, muitas mulheres atravessam uma sequência silenciosa de esperança, espera, medo e frustração. Quando esse processo se prolonga, a fertilidade deixa de ocupar apenas o consultório e começa a atravessar o sono, a alimentação, a sexualidade, o relacionamento e a própria forma como essa mulher enxerga o seu corpo.
É por isso que falar sobre fertilidade também é falar sobre saúde mental e emocional.
Nesse mês, conversei com Moniele Cunha, nutricionista especializada em fertilidade feminina e masculina, que há 17 anos acompanha mulheres e casais na preparação para a gestação. Ao longo dessa trajetória, já atendeu presencialmente mais de 25 mil pacientes, enquanto mais de 56 mil mulheres e casais, em cerca de 40 países, já passaram por seus programas e treinamentos online.
Há uns anos, fizemos alguns encontros de Mindfulness para suas pacientes para ajudar na parte da saúde mental e emocional.
Para Moniele, olhar para a fertilidade exige enxergar muito além dos exames. É preciso considerar a pessoa por trás do diagnóstico: seus hábitos, sua história, seu relacionamento, seu estado emocional e tudo aquilo que ainda pode ser cuidado e aprimorado.
- Quando a tentativa de engravidar começa a pesar emocionalmente, o que acontece com essa mulher?
Para muitas mulheres, chega um momento em que o ciclo menstrual deixa de ser apenas um marcador de saúde.
Ele vira calendário. A relação íntima vira estratégia. A ovulação vira obrigação.O teste de gravidez vira ansiedade.E a chegada da menstruação pode ser vivida como uma nova perda.
A ciência já reconhece que mulheres em investigação ou tratamento para infertilidade podem apresentar níveis relevantes de ansiedade, estresse e sintomas depressivos.
Por isso, organizações internacionais de reprodução humana defendem que o cuidado emocional e psicossocial faça parte da assistência a quem enfrenta dificuldades para engravidar.
Mas aqui existe um cuidado importante.Isso não significa que a mulher não engravida porque está ansiosa. Essa interpretação é simplista e pode ser muito cruel. Poucas frases machucam tanto uma futura mamãe quanto ouvir:“Quando você relaxar, acontece.”
A mulher já está lidando com exames, tratamentos, expectativas, custos e, muitas vezes, anos de frustração. Colocar sobre ela a responsabilidade de controlar perfeitamente as próprias emoções cria apenas mais culpa.
- Por que é importante olhar para corpo e mente de forma integrada durante a preparação para a gestação?
O que sabemos é que o organismo funciona de maneira integrada. Sono, alimentação, saúde metabólica, atividade física, inflamação, funcionamento intestinal, hormônios e saúde emocional se relacionam continuamente.
Por isso, quando penso em preparação para a gestação, não olho apenas para a possibilidade de ovular ou para os números de um exame.
Eu quero entender como essa mulher está vivendo. Como ela dorme. Como se alimenta. Como está sua energia. Como está o parceiro. Como está o relacionamento. E como ela está emocionalmente depois de tantos meses ou anos tentando. Essa visão não substitui a medicina reprodutiva. Ela complementa o cuidado.
- E onde o Mindfulness entra nesse processo?
E o Mindfulness pode ser uma das ferramentas utilizadas nesse caminho. De forma simples, significa treinar a atenção para o momento presente e aprender a observar pensamentos, emoções e sensações sem reagir automaticamente a cada um deles.
Estudos com mulheres enfrentando infertilidade mostram que intervenções baseadas em Mindfulness podem contribuir para redução de ansiedade, estresse e sintomas depressivos, além de melhorar aspectos da qualidade de vida.
Além da mudança de estilo de vida, redução de poluentes, cuidados com saúde intestinal, suplementação personalizada, equilíbrio hormonal, essa técnica pode ajudar a mulher a atravessar esse processo com menos sofrimento emocional.
Respirar conscientemente durante alguns minutos quando se sentir ansiosa. Fazer uma refeição sem celular. Caminhar prestando atenção ao próprio corpo.
Reconhecer um pensamento como “eu estou com medo de não conseguir” sem imediatamente transformá-lo em “eu nunca vou conseguir ser mãe”.
Para quem vive uma jornada longa de infertilidade, essa mudança pode fazer diferença na forma de atravessar a jornada.
- Existe alguma história de paciente que tenha mudado sua forma de enxergar a fertilidade?
Uma das histórias que mais me marcou foi a de uma paciente de Luxemburgo. Ela tentava engravidar havia aproximadamente quatro anos.
Tinha síndrome dos ovários policísticos, endometriose, histórico de cirurgias e estava sem menstruar. Ao longo daquele período, passou por avaliações em quatro países e ouviu prognósticos muito desafiadores sobre suas chances de ser mãe, inclusive por reprodução assistida.
Quando analisei seu caso, eu não procurei apenas aquilo que estava comprometido. Procurei entender o que ainda poderia ser trabalhado. E disse algo que ela nunca esqueceu: “Você não precisa de muitos óvulos. Para uma gestação acontecer, precisamos de uma oportunidade biologicamente viável. Vamos cuidar de tudo aquilo que ainda podemos melhorar.”
A partir daí, iniciamos um trabalho individualizado de preparação, considerando saúde metabólica, nutrição, estilo de vida e contexto reprodutivo.
Menos de dois meses depois, após aproximadamente quatro anos de tentativas, ela engravidou naturalmente. Esse caso não significa que exista uma fórmula capaz de produzir o mesmo resultado em todas as mulheres.
E também não significa que uma única intervenção tenha causado aquela gestação. Mas ele representa uma mensagem que considero muito importante na fertilidade.
Um diagnóstico precisa ser levado a sério.Um prognóstico também. Mas nenhum deles deveria impedir que o caso fosse analisado de forma individual e completa.
- Como equilibrar esperança e responsabilidade quando o assunto é fertilidade?
Na fertilidade existe uma linha muito delicada entre esperança e promessa. Não podemos prometer gravidez. Existem fatores biológicos importantes e existem situações em que a medicina precisa se aproximar.
Mas também não deveríamos reduzir uma mulher apenas ao pior resultado do seu exame. Quando recebo uma paciente, não quero saber somente o que está errado. Quero descobrir também: O que ainda podemos melhorar? Esse olhar muda a conversa, porque sai a ideia da perfeição e entra a preparação com estratégia.
Sai a sensação de que o corpo é um inimigo e entra a possibilidade de compreendê-lo melhor, o que trazemos muito no Mindfulness também.
- Para finalizar, qual é a mensagem que você gostaria de deixar para as mulheres que estão vivendo essa espera?
Talvez essa seja uma das mensagens mais importantes quando falamos de saúde mental e fertilidade.
Algumas mulheres passam tanto tempo tentando se tornar mães que começam, sem perceber, a abandonar outras partes de si mesmas.
Por isso, preparar o corpo para uma gestação também deveria significar cuidar da mulher que está vivendo essa espera.
Dos seus exames, sim. Da alimentação, sim. Dos hormônios, sim.
Mas também do sono, do relacionamento, da ansiedade, do medo e da vida que continua acontecendo enquanto o positivo ainda não chegou.
A fertilidade não deveria ser uma jornada em que a mulher precise desaparecer para tentar se tornar mãe. Porque antes da futura mãe, existe uma mulher. E ela também precisa ser cuidada.
UM OLHAR PARA ALÉM DO POSITIVO
A fala de Moniele traz uma reflexão importante: cuidar da fertilidade não deveria significar cuidar apenas da possibilidade de uma gestação, mas também da mulher que está vivendo todo esse processo.
Não existe fórmula capaz de garantir um resultado, mas existe a possibilidade de atravessar essa jornada com mais informação, autocuidado e consciência.
E talvez esse seja um dos primeiros passos: não esperar pelo positivo para voltar a cuidar de si. Se você entende a importância de cuidar de mente e emoções nesse momento, tem um Protocolo em grupo de Mindfulness online que começa em outubro.
source https://boaforma.abril.com.br/coluna/mindfulness/fertilidade-cuidar-da-mente/
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