Existe uma cena bastante comum quando alguém decide emagrecer: a primeira providência é cortar calorias e a segunda é procurar uma dieta mais restritiva. A terceira costuma ser subir na balança todos os dias para verificar se o esforço está funcionando.
Mas talvez estejamos começando a conversa pelo lugar errado. Antes de perguntar quanto peso você precisa perder, uma pergunta mais importante deveria ser feita: quanto músculo você tem?
O número que aparece na balança é apenas uma parte da história! Duas pessoas podem pesar exatamente o mesmo e apresentar composições corporais completamente diferentes; uma pode ter maior quantidade de massa muscular e menor percentual de
gordura. A outra pode ter pouca massa muscular e maior quantidade de gordura.
Por isso, emagrecer e perder peso não são necessariamente a mesma coisa. Quando o objetivo é saúde, estética, funcionalidade e longevidade, o que importa não é simplesmente reduzir o número de quilos, mas melhorar a composição corporal preservando, e sempre que possível aumentando, a massa muscular.
Essa discussão ganhou ainda mais relevância com a popularização dos medicamentos para tratamento da obesidade. As chamadas canetas para emagrecimento revolucionaram o tratamento do excesso de peso e trouxeram uma nova possibilidade para milhões de pessoas.
Mas também reforçaram uma preocupação que a fisiologia do exercício já conhece há muito tempo: quando o peso corporal diminui, precisamos prestar atenção ao que está sendo perdido junto com a gordura.
Uma redução rápida do peso pode envolver diferentes componentes corporais, incluindo água, gordura e massa livre de gordura. E a massa livre de gordura não é sinônimo de músculo. Por isso, simplesmente acompanhar os quilos perdidos não permite saber
exatamente o que aconteceu com a composição corporal.
É aqui que o treinamento de força entra como protagonista. Músculo não é apenas uma questão estética. Ele participa da locomoção, da estabilidade articular, da produção de força e da capacidade de realizar atividades cotidianas. Também funciona como um importante tecido metabolicamente ativo e está diretamente relacionado à autonomia física ao longo do envelhecimento.
Construir músculo, portanto, não deveria ser encarado como uma etapa exclusiva de quem deseja ficar mais definido ou aumentar a performance esportiva, é uma estratégia de saúde e existe uma mudança de mentalidade importante nessa ideia.
Em vez de pensar que primeiro precisamos emagrecer para depois começar a musculação, podemos pensar que precisamos construir uma estrutura muscular capaz de sustentar o processo de emagrecimento.
Isso não significa que toda pessoa precise ganhar músculo antes de iniciar uma estratégia de perda de peso. Pessoas com obesidade, por exemplo, podem e devem receber tratamento adequado para redução do excesso de gordura, inclusive quando houver indicação médica para utilização de medicamentos. A questão é que a perda de gordura precisa acontecer com atenção à preservação da massa muscular.
Na prática, isso significa que o treinamento de força não deveria entrar como complemento opcional no final da dieta. Ele deveria fazer parte do plano desde o início. Outro ponto fundamental é a alimentação. Um déficit energético muito agressivo pode acelerar a perda de peso, mas não necessariamente produz o melhor resultado corporal.
Pilares cruciais para massa muscular
Para preservar ou aumentar massa muscular, é necessário oferecer ao organismo estímulo mecânico adequado e nutrientes suficientes, especialmente proteínas distribuídas ao longo do dia.
Treino e alimentação trabalham juntos! O exercício de força sinaliza ao organismo que aquele tecido é necessário. A alimentação fornece parte dos recursos para sua manutenção e construção e o descanso permite que o processo de adaptação aconteça.
É uma lógica muito diferente da tradicional mentalidade de emagrecimento, que costuma se resumir a comer menos e gastar mais. O corpo humano não é uma simples equação matemática e talvez essa seja uma das razões pelas quais tantas pessoas emagrecem, mas continuam insatisfeitas com o resultado.
A balança caiu, mas a composição corporal não necessariamente evoluiu na mesma proporção, em alguns casos, a pessoa fica menor, porém não necessariamente mais forte, mais funcional ou metabolicamente saudável.
O conceito de emagrecimento precisa amadurecer. Em vez de comemorar exclusivamente a perda de dez quilos, deveríamos perguntar: quanto de gordura foi perdido? Quanto de massa muscular foi preservado? Como está a força? Como está a capacidade funcional? Como está o sono? Como está a disposição? Como está a relação da pessoa com a atividade física? A balança continua tendo seu lugar.
Mas ela não pode ser o único instrumento de avaliação! Para quem está começando um processo de transformação corporal, talvez a
estratégia mais inteligente seja inverter a pergunta. Não pense apenas em como perder peso, avalie em como construir um corpo capaz de perder gordura sem perder aquilo que você mais precisará para envelhecer bem: força e músculo.
Essa perspectiva também muda a relação com o tempo! Ganhar músculo é um processo mais lento do que perder alguns quilos de água ou reduzir rapidamente o peso corporal. Exige estímulo consistente, alimentação adequada, sono e paciência, mas é justamente essa construção gradual que pode fazer diferença décadas depois.
A partir dos 40 anos, essa conversa se torna ainda mais relevante. O envelhecimento está associado à redução progressiva de massa e força muscular, especialmente quando não há estímulo adequado. Não precisamos esperar que essa perda aconteça para então tentar recuperá-la.
Podemos construir uma reserva, uma espécie de patrimônio físico que será utilizado ao longo da vida e por isso, talvez a pergunta mais importante antes de iniciar uma dieta não seja “quantos quilos quero perder?”, mas “que corpo quero ter quando chegar ao
meu objetivo?”.
Se a resposta envolver saúde, autonomia, força, disposição e longevidade, existe um componente que não pode ficar de fora da equação: o músculo.
Emagrecer pode fazer a balança comemorar e ganhar músculo faz o corpo agradecer. E, no longo prazo, talvez essa seja a diferença entre simplesmente pesar menos e realmente estar melhor.
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BIANCA VILELA é autora do livro Respire, palestrante, mestre em fisiologia do exercício pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e produtora de conteúdo. Desenvolve programas de saúde em grandes empresas por todo o país há quase 20
anos. Na Boa Forma fala sobre saúde no trabalho, produtividade e mudança de hábitos. Não deixe de visitar o Instagram: @biancavilelaoficial
source https://boaforma.abril.com.br/coluna/home-office-saudavel/antes-de-emagrecer-ganhe-musculo/
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